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domingo, 30 de agosto de 2015

Árido



Eu estou vazio,
Todo o mundo ecoa
Dentro de mim.
O mesmo som que entra,
Sai sem tocar em uma gota de sangue.

Saem apressados,
Pelos olhos anestesiados,
Pelos ouvidos exaustos.
E são levados pelo vento.

Nada floresce,
Mas ao menos,
Não há nada para estragar.

Mas existe uma sensação
De que algo poderia mudar.
E isso entoa ameaça para minhas mazelas,
Que em raiva atiram-me ao chão.

E as enfermidades da terra árida são tantas,
Que cada golpe de enxada
Parece só fazer um novo buraco sem sentido.

Os anos são lentos como sementes,
Principalmente quando se aprende a senti-los com os dedos.
E para de vê-los passando com os olhos.

Mas realmente é difícil,
Sentir o pesar dos anos nas costas,
Mas imaginar com ternura
Que ainda são poucos!
E não senti metade do que há em mim,
Pois sou poeta.  

sábado, 22 de agosto de 2015

,




Eu acordei com pesos nos tornozelos e um demônio sem vergonha alguma
De me encarar da beirada da cama.
Ele subia seus olhos pelas minhas pernas e puxava calafrios até a espinha,
Tudo que eu conseguia pensar era se ainda não era cedo.
Talvez ele pudesse ter errado a casa, a cama, a alma.

O relógio no criado mudo dizia que a luz ainda iria demorar para me salvar,
E cada segundo que passava eu desejava que ele fosse cego.
Pois encarava-me de forma sublime, mas como se eu não existisse.
Seus olhos atravessavam a carne, não sabia bem o que ele enxergava.
Mas com certeza não era o mesmo que eu enxerguei no espelho antes de dormir.

Ele segurava uma xícara em uma das mãos e com um dedo da outra movia a bebida
Que continha dentro dela.
Sua respiração pesava, cada vez mais barulhenta, como se chovesse dentro de seu peito.

Fingi não conseguir mover um músculo enquanto o silencio subia meu pescoço até o ouvido.
Os meus olhos me traiam, iam de encontro a tudo que eu temia.
Rastejavam em volta do seu rosto.
Mas também, quem acorda com um demônio ao pé da cama e vira para o outro lado para dormir novamente.

Será que foram as vírgulas?
Qual castigo poderá existir para quem nunca preferiu certezas.
Elas sempre estiveram mais para pontos finais, e eu odeio pontos finais!
Nasci com um ponto final na testa,
Mas tatuei uma vírgula no peito.
Que me torture a carne e alma logo!
Pensei o mais baixo que pude.

As vírgulas são uma continuação, uma sobriedade dos fatos.
A certeza é a ultima estação mental, a aceitação, o padecimento do meu ser.
Todos os dias de manhã eu encarava humores calejados e gravatas torradas pelo sol.
Eram certezas indo e voltando, não se permitindo viver.
E eu queria sair colando dúvidas em todos.

-São essas palavras que gostaria que lessem em sua lápide?

Aquela voz subiu todos os pelos do meu corpo de uma vez.
Eu não sabia o que responder.

-Você achou mesmo que eu não saberia ler seus pensamentos?
Vou te contar um segredo.
Eu me canso de gritar dentro de você.
 
Ele cruzou as pernas e bebeu mais um pouco do que trazia na xícara,
E quando parou de beber pareceu sentir a bebida descendo seu corpo.
Suas mãos estavam brancas e limpas, mas seus pés traziam uma lama escura.
E talvez eu sentisse aquela lama por todo o meu corpo,
Gostaria de ter tido tempo para escolher melhor.

-Bem, como eu dizia antes de você começar a trair seus pensamentos.
Saiu para fora não para tomar um sol ou te tomar o ar.
Eu não quero que você se despeça do romantismo das suas incertezas,
Venho para te fazer lembrar que somente elas não moveram seus pés.

Esses pesos no seu tornozelo não são por inveja, mau agouro ou azar.
E também não fui eu que coloquei.
Você se impulsa com suas dúvidas até seus calcanhares saírem do chão,
Mas não se permite voar completamente até onde elas poderiam te levar.
Você teme ser inefável sem ao menos tentar traduzir.  
Seu laço em volta do pescoço é praticamente igual ao de todos,
A única diferença dele é que você o enxerga.
Não sou um demônio ou seu demônio.
Me de seu próprio nome, pois eu sou você.

Ele levantou-se da ponta da cama e com uma das mãos tapou meus olhos,
No mesmo instante em que eu temi a morte eu encontrei a salvação.  
Mas o que farei com ela eu ainda não sei.
Pois sou feito de falhas, lágrimas e avisos.
Sou humano demais para melhorar,
Mas não poderei negar que essa corda começa a incomodar.

domingo, 9 de agosto de 2015

Duplipensar.



Se acaso ousou pensar,
Travo a sua poesia na garganta.

Ela não subirá a mente,
Não sofrerá mal algum.
Acredite em mim.
Descanse em paz,
E largue esses versos.

Cubra-se com esse véu
Que te cega para seu bem.
Não queimará retina,
Nem poderá ver a lua.

Muito menos amará!
Isso é para fracos.
Tristeza?
Isso é apenas ilusão.
Viverá de poses,
E as poses viveram de ti.
Tristeza é não ter um tostão.

Mas você pode tudo.
Respirará somente ouro,
Enquanto despeja sorrisos
Aos tolos que rimam.

E não ouse rimar!
Nem por descuido.
Nem por devaneio.

Isso é para loucos e poucos.
Infelizes, que bebem saudade com ternura.
Não se cansam de destilar prazer dos desprazeres.