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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cambista


Eu não lembro quando foi  
Que eu troquei
A minha alma nessa corda
Que passei ao redor do pescoço

Não lembro de ter concordado
Em trocar sangue por ouro
Ouro por felicidade
Felicidade por tempo
Tempo por ilusão
Ilusão por realidade
Os meus bolsos estão cheios dela

Eu não lembro de ter chorado
Para entrar nesse clube
Onde sou eu que abro as portas
E atendo sorrindo

Ao invés de estar na grama
Sentindo mais do que só a pele
Queimando em contato
Com o sol

terça-feira, 27 de março de 2018

BAR


Odeio como você bebe a tristeza
Sem respirar um segundo
Entre um gole e o outro
Acaba com o copo de uma vez
E estica o braço
Para pedir mais

Outras bebidas dançam
Nas bandejas dos garçons
Antes de encostar nos lábios
De outras pessoas
Você fecha os olhos nesse momento
Para não sentir
O gosto por sinestesia

Você se afoga
E afoga as magoas
Com as próprias magoas
Vinte e poucos anos
Em um gole, glup

No fundo você sabe
Que misturou tristeza
Com um cubo de medo

Medo de descobrir
Que a felicidade é tão
Efêmera quanto a tristeza
Que você bebe
E no outro dia acorda
Indiferente a ela

Você preserva a euforia
Da felicidade
Como um bom uísque
Para ela permanecer
Intacta aos seus olhos
E sonhos

E só não pede uma dose dela
Porque está bêbado demais
Para se lembrar que já a sentiu
E amou.  

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ABUJAMRA.


Nos meus sonhos Abujamra
Me olhou nos olhos
E me perguntou calmamente
O que é a vida?  

E eu respondi
Que ela é tudo aquilo
Que cabe entre o nascimento
E a morte

Provocativo como sempre foi
Ele voltou a me olhar
Dessa vez, sério e fechado
E me perguntou
Leandro, o que é a vida?

Com as mãos trêmulas
E os olhos marejados
Como se tivesse entrado areia neles
Eu respondi
Que a vida é o tempo
O tempo em que a existência brilha no presente
Sem saber que aquilo é o passado

Abujamra não mostrou satisfação
Passou a mão nos poucos fios
De cabelo que lhe restavam na cabeça
E voltou a me perguntar
Leandro, o que é a vida?

Com os lábios secos
E quase rachados
Eu sorri
Mostrando algumas rugas
Enquanto disfarçava o desconforto

A vida é um intervalo
Um intervalo de importância máxima
Ou mínima
Apenas para quem vive e respira
Dentro de si
Ela é o egoísmo 


Abujamra inflamou
Apoiou as mãos na mesa
Levantou-se
E mais uma vez perguntou
Leandro! o que é a vida?

A vida?
Perguntei eu, contra a minha vontade
Ah a vida
Ela é o que eu já perdi
E achei milhares de vezes!
É o que eu já senti
E não senti
É o vazio e o medo
É o orgasmo e a felicidade

Ah! a vida!
Ela é tudo o que eu acho que ela é
Ao mesmo passo de não ser
Nada do que imagino
Ah a ...

Abujamra deu um tapa na mesa
Me interrompendo
E furioso refez a pergunta
LEANDRO! O QUE É A VIDA?

EU NÃO SEI!
EU NÃO SEI!
Respondi para seu espectro.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

I Shot the Sheriff.



Eu atirei no Xerife, abaixo do coração. Ouvi a bala rasgando a carne e estraçalhando seus ossos. Acho que ele também escutou e a melhor parte é que sentiu. Eu senti também, mas o que senti foi prazer.
      Você consegue imaginar uma lanchonete qualquer? Mesas a esquerda, balcão longo a sua direita. Tão cedo que não sabia se dava bom dia ou boa noite, tão cedo que as pessoas pareciam estar dormindo ainda, com seus rostos amassados e cheios de marcas de travesseiro cruzando as bochechas, menos as mulheres, as mulheres que lá estavam brilhavam como o sol. Entrei com o corpo e arrastando a alma pelo braço. E lá estava ele, sentado no fim do balcão, com seu chapéu no banco ao lado e a estrela brilhando no peito onde eu atiraria em alguns minutos. Pude sentir todos os aromas que envolviam a cena, o cheiro de café forte sem açúcar, ovos e bacon na frigideira. Entre um gole e outro no que parecia uísque ele olhava para a bunda da garçonete, levantando sua saia com os olhos, soltando o coque da cabeça dela com a imaginação.
      Do mesmo jeito que olhou para...
      Não, você não vai saber de nada, só vai saber que me sentei a alguns metros dele, pedi meu café e não desgrudei os olhos da sua cara, como se pudesse abrir um buraco no rosto dele com os meus olhos.
      Até que ele percebeu e se levantou, veio me encarando com os olhos baixos e gingando de um lado para o outro, com a mão direita encostada em cima daquela merda que ele chama de arma. Acho que ele acha que ainda estamos no velho oeste. Quando seus lábios formaram a primeira palavra, apontei a minha Colt 45 para ele.
      Fazendo o desgraçado engolir o resto da frase. O peso da arma e da minha consciência virgem fazia o cano descer um pouco, quase vacilei e pedi perdão, mas tem certas horas que a única coisa que você pode fazer é aproveitar a viagem.
      Você já teve uma arma apontada ou pelo menos esteve em um local nessa hora? Consegue imaginar a cena? A cara pálida dele, meus lábios e mãos tremendo, a garçonete num grito abafado enquanto a jarra de vidro de café caia do lado dos seus pés.
      Eu estava no olho do furacão, mas não era o único que sentia os ombros pesados e o corpo inteiro suar. Acho que até Deus para tudo que está fazendo para ver cenas como essa.  
            Achava que pessoas ruins sabiam que eram demônios fazendo hora extra na terra e saiam de casa esperando morrer, mas a reação dele quebrou a minha teoria. Agora tenho uma nova, acho que eles não pensam na morte durante o dia pois sabem que a terra foi dominada por eles. Pelo menos agora será dois a menos.
            Droga, o bacon queimou.