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terça-feira, 27 de março de 2018

BAR


Odeio como você bebe a tristeza
Sem respirar um segundo
Entre um gole e o outro
Acaba com o copo de uma vez
E estica o braço
Para pedir mais

Outras bebidas dançam
Nas bandejas dos garçons
Antes de encostar nos lábios
De outras pessoas
Você fecha os olhos nesse momento
Para não sentir
O gosto por sinestesia

Você se afoga
E afoga as magoas
Com as próprias magoas
Vinte e poucos anos
Em um gole, glup

No fundo você sabe
Que misturou tristeza
Com um cubo de medo

Medo de descobrir
Que a felicidade é tão
Efêmera quanto a tristeza
Que você bebe
E no outro dia acorda
Indiferente a ela

Você preserva a euforia
Da felicidade
Como um bom uísque
Para ela permanecer
Intacta aos seus olhos
E sonhos

E só não pede uma dose dela
Porque está bêbado demais
Para se lembrar que já a sentiu
E amou.  

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ABUJAMRA.


Nos meus sonhos Abujamra
Me olhou nos olhos
E me perguntou calmamente
O que é a vida?  

E eu respondi
Que ela é tudo aquilo
Que cabe entre o nascimento
E a morte

Provocativo como sempre foi
Ele voltou a me olhar
Dessa vez, sério e fechado
E me perguntou
Leandro, o que é a vida?

Com as mãos trêmulas
E os olhos marejados
Como se tivesse entrado areia neles
Eu respondi
Que a vida é o tempo
O tempo em que a existência brilha no presente
Sem saber que aquilo é o passado

Abujamra não mostrou satisfação
Passou a mão nos poucos fios
De cabelo que lhe restavam na cabeça
E voltou a me perguntar
Leandro, o que é a vida?

Com os lábios secos
E quase rachados
Eu sorri
Mostrando algumas rugas
Enquanto disfarçava o desconforto

A vida é um intervalo
Um intervalo de importância máxima
Ou mínima
Apenas para quem vive e respira
Dentro de si
Ela é o egoísmo 


Abujamra inflamou
Apoiou as mãos na mesa
Levantou-se
E mais uma vez perguntou
Leandro! o que é a vida?

A vida?
Perguntei eu, contra a minha vontade
Ah a vida
Ela é o que eu já perdi
E achei milhares de vezes!
É o que eu já senti
E não senti
É o vazio e o medo
É o orgasmo e a felicidade

Ah! a vida!
Ela é tudo o que eu acho que ela é
Ao mesmo passo de não ser
Nada do que imagino
Ah a ...

Abujamra deu um tapa na mesa
Me interrompendo
E furioso refez a pergunta
LEANDRO! O QUE É A VIDA?

EU NÃO SEI!
EU NÃO SEI!
Respondi para seu espectro.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

I Shot the Sheriff.



Eu atirei no Xerife, abaixo do coração. Ouvi a bala rasgando a carne e estraçalhando seus ossos. Acho que ele também escutou e a melhor parte é que sentiu. Eu senti também, mas o que senti foi prazer.
      Você consegue imaginar uma lanchonete qualquer? Mesas a esquerda, balcão longo a sua direita. Tão cedo que não sabia se dava bom dia ou boa noite, tão cedo que as pessoas pareciam estar dormindo ainda, com seus rostos amassados e cheios de marcas de travesseiro cruzando as bochechas, menos as mulheres, as mulheres que lá estavam brilhavam como o sol. Entrei com o corpo e arrastando a alma pelo braço. E lá estava ele, sentado no fim do balcão, com seu chapéu no banco ao lado e a estrela brilhando no peito onde eu atiraria em alguns minutos. Pude sentir todos os aromas que envolviam a cena, o cheiro de café forte sem açúcar, ovos e bacon na frigideira. Entre um gole e outro no que parecia uísque ele olhava para a bunda da garçonete, levantando sua saia com os olhos, soltando o coque da cabeça dela com a imaginação.
      Do mesmo jeito que olhou para...
      Não, você não vai saber de nada, só vai saber que me sentei a alguns metros dele, pedi meu café e não desgrudei os olhos da sua cara, como se pudesse abrir um buraco no rosto dele com os meus olhos.
      Até que ele percebeu e se levantou, veio me encarando com os olhos baixos e gingando de um lado para o outro, com a mão direita encostada em cima daquela merda que ele chama de arma. Acho que ele acha que ainda estamos no velho oeste. Quando seus lábios formaram a primeira palavra, apontei a minha Colt 45 para ele.
      Fazendo o desgraçado engolir o resto da frase. O peso da arma e da minha consciência virgem fazia o cano descer um pouco, quase vacilei e pedi perdão, mas tem certas horas que a única coisa que você pode fazer é aproveitar a viagem.
      Você já teve uma arma apontada ou pelo menos esteve em um local nessa hora? Consegue imaginar a cena? A cara pálida dele, meus lábios e mãos tremendo, a garçonete num grito abafado enquanto a jarra de vidro de café caia do lado do seu pé.
      Eu estava no olho do furacão, mas não era o único que sentia os ombros pesados e o corpo inteiro suar. Acho que até Deus para tudo que está fazendo para ver cenas como essa.  
            Achava que pessoas ruins sabiam que eram demônios fazendo hora extra na terra e saiam de casa esperando morrer, mas a reação dele quebrou a minha teoria. Agora tenho uma nova, acho que eles não pensam na morte durante o dia pois sabem que a terra foi dominada por eles. Pelo menos agora será dois a menos.
            Droga, o bacon queimou.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Aluga-se



Eu vejo olhares
Olhares
Que não
Parecem estar
Sendo habitados por ninguém

São casas vazias
Em movimento
Gritando em silencio

Aluga-se!

Essa vida
E esse par de olhos
Com vista para a morte.

Eu vejo lábios
Lábios
Onde a conversa
É sempre banal

Aluga-se!

Um par de lábios finos
Onde o óbvio
Corta e faz jorrar
O ódio.

Se eu pudesse alugar
Qualquer parte
Dessas casas em movimento
Eu alugaria os ouvidos.

Passaria um final de semana
Aos sussurros
Dentro dele

Dizendo o quanto
Os seus outros cômodos
São incríveis

Passaria na sua janela
Só para ver os sonhos
Que pendurou nas paredes

E na calada da noite
Dizer
Que a primeira etapa da realização
É o sonho.

Eu sei
São dores sem vazão
E por outro lado
Se tem
Muita
Infiltração

Fazendo parecer
Que a única alternativa
É deixar
De habitar em si.